O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) afirmou nesta quinta-feira (20) que considera encerrada a controvérsia envolvendo o financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Questionado sobre a prestação de contas da produção, Flávio declarou que o procedimento já teria sido realizado. Apesar disso, não apresentou publicamente os valores envolvidos, os gastos da produção ou a origem e a destinação detalhada dos recursos.
A declaração foi dada durante uma agenda política na região de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. Segundo o candidato, a documentação teria sido disponibilizada no processo relacionado ao caso e estaria regular.
O episódio, porém, permanece sob investigação.
Em julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de um inquérito pela Polícia Federal para apurar os repasses feitos pelo banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o longa. A investigação busca rastrear aproximadamente R$ 61 milhões que teriam sido destinados à produção e verificar se houve alguma irregularidade ou eventual contrapartida relacionada ao candidato.
O inquérito tramita sob sigilo.
Transparência continua sendo ponto central
A discussão sobre Dark Horse ultrapassa a disputa eleitoral e toca em uma questão fundamental para qualquer democracia: a transparência sobre a origem e a utilização de recursos financeiros ligados à política.
Em maio, Flávio havia afirmado estar disposto a tornar público o contrato relacionado ao financiamento do filme. Na ocasião, explicou que a divulgação dependeria das regras de compliance de um fundo privado sediado nos Estados Unidos.
Posteriormente, o candidato afirmou ter solicitado à produtora Go Up Entertainment uma prestação de contas dos gastos da produção.
Em junho, uma perícia privada contratada pela defesa da produtora estimou o custo do filme em aproximadamente R$ 75 milhões, considerando despesas realizadas no Brasil e nos Estados Unidos. O levantamento apontou que os recursos teriam sido aportados pelo Havengate Development Fund, mas não identificou nominalmente os financiadores por trás do fundo.
É justamente nesse ponto que a exigência por transparência ganha relevância.
Se recursos milionários foram utilizados para financiar uma produção diretamente relacionada à trajetória de um candidato à Presidência, o interesse público não se limita à existência formal de uma prestação de contas. Também importa compreender quem financiou, quanto foi destinado, como o dinheiro foi utilizado e se houve qualquer relação entre os aportes e interesses políticos ou econômicos.
“Página virada”
Ao ser questionado novamente sobre o assunto, Flávio preferiu deslocar o foco para acusações contra o governo Lula e afirmou que, em sua avaliação, a responsabilidade pelas explicações agora seria de seus adversários.
A estratégia adotada pela campanha é tratar o episódio como uma questão já superada e atribuir à produtora a responsabilidade pela prestação de contas. O coordenador da campanha, Rogério Marinho, adotou posicionamento semelhante ao ser questionado sobre o caso nesta semana.
Mas uma investigação ainda em andamento não deixa de existir porque um dos envolvidos considera o assunto encerrado.
Em uma democracia orientada pelos princípios da razão, da responsabilidade pública e da fiscalização do poder, transparência não deveria ser tratada como favor ou instrumento de disputa eleitoral. É uma condição básica para que o cidadão possa avaliar os fatos por conta própria.
O filme Dark Horse, que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro, ainda não foi lançado. Enquanto isso, a investigação sobre os recursos utilizados em sua produção permanece em curso.
O princípio é simples: quando milhões estão em discussão e existe interesse político envolvido, a sociedade tem o direito de conhecer os fatos.








