Durante participação na tradicional Marcha para Jesus, realizada em São Paulo, o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro voltou a recorrer a conceitos religiosos para interpretar a disputa política nacional. Ao afirmar que o Brasil vive uma “guerra espiritual” e defender a expulsão do “mal” do governo, o parlamentar reforçou uma estratégia que mistura fé e projeto de poder, prática cada vez mais presente no debate público brasileiro.
Embora a liberdade religiosa seja um dos pilares de uma sociedade democrática, especialistas em Estado laico alertam para os riscos de transformar crenças particulares em instrumentos de mobilização política. Quando adversários passam a ser apresentados como representantes do “mal”, o espaço para o diálogo racional, para a divergência legítima e para a construção de consensos democráticos tende a ser substituído por uma lógica de confronto moral absoluto.
A retórica da guerra espiritual não é nova. Ela tem sido utilizada por lideranças religiosas e políticas em diferentes contextos para mobilizar fiéis e fortalecer identidades coletivas. O problema surge quando questões complexas de administração pública, economia, educação ou segurança deixam de ser discutidas com base em evidências e passam a ser tratadas como batalhas metafísicas entre forças do bem e do mal.
Em uma república democrática, governos devem ser avaliados por seus resultados, políticas públicas e respeito às instituições, e não por interpretações religiosas sobre seus ocupantes. O Estado brasileiro pertence igualmente a cristãos, judeus, muçulmanos, espíritas, adeptos de religiões de matriz africana, agnósticos e ateus. Sua legitimidade deriva da Constituição e da soberania popular, não de credos específicos.
A presença de líderes políticos em eventos religiosos faz parte do jogo democrático e da liberdade de expressão. No entanto, o fortalecimento das instituições republicanas exige que a esfera pública permaneça orientada pela razão, pelo debate aberto e pelo respeito à diversidade de convicções que caracteriza uma sociedade plural.
À medida que a corrida eleitoral de 2026 ganha força, o episódio reforça uma questão central para o futuro do país: o Brasil será governado por propostas concretas e evidências ou por narrativas de natureza espiritual que transformam adversários políticos em inimigos morais?









