A troca de acusações entre o senador Flávio Bolsonaro e o deputado Paulinho da Força sobre a chamada “Lei da Dosimetria” expôs mais uma vez um problema recorrente da política brasileira: a dificuldade de separar instituições republicanas de disputas movidas por narrativas personalistas e interesses partidários.
O episódio começou após Flávio Bolsonaro insinuar que haveria um suposto “jogo combinado” entre o deputado Paulinho da Força e o ministro do STF Alexandre de Moraes durante a tramitação do projeto no Congresso. A declaração veio após Moraes suspender a aplicação imediata da nova lei aprovada pelo Parlamento.
Em resposta, Paulinho afirmou que o texto foi construído de maneira ampla, ouvindo diferentes bancadas e parlamentares, incluindo integrantes da própria oposição. O deputado também criticou a transformação do debate institucional em conflito político e pessoal.
Mais do que uma simples troca de acusações, o caso revela uma fragilidade estrutural da democracia brasileira contemporânea: a crescente substituição do debate racional por disputas de narrativa e suspeições permanentes entre os poderes da República.
O Iluminismo, movimento filosófico que inspirou as democracias modernas, defendia justamente o contrário. Pensadores como Montesquieu argumentavam que sociedades livres dependem de instituições independentes, fiscalização mútua entre os poderes e transparência pública. Em vez de teorias conspiratórias ou lealdades pessoais, o centro da política deveria ser o interesse coletivo e o respeito às regras institucionais.
Quando figuras públicas passam a tratar decisões institucionais apenas como resultado de “combinações ocultas”, sem provas concretas, o debate político se afasta da racionalidade e se aproxima da lógica da desconfiança permanente. Isso enfraquece não apenas adversários políticos, mas também a própria credibilidade das instituições democráticas.
Ao mesmo tempo, decisões monocráticas do Judiciário e disputas constantes entre Congresso e STF também evidenciam a necessidade de maior clareza sobre os limites e competências de cada poder. Democracias maduras não sobrevivem apenas de votos ou popularidade digital, mas da existência de regras estáveis, previsibilidade jurídica e confiança pública nas instituições.
Enquanto setores políticos seguem mobilizados em torno de conflitos simbólicos e guerras narrativas, temas centrais para a população, como educação, produtividade econômica, ciência, segurança pública e desenvolvimento social, continuam frequentemente relegados ao segundo plano do debate nacional.









